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Casmurros

“A lei moral é uma invenção da humanidade para destituir de seus direitos os fortes em favor dos fracos. A lei da história a subverte a cada avanço. Um ponto de vista moral jamais pode se provar justo oi injusto por nenhum teste último. Ao tombar morto em duelo um homem não é visto como tendo demonstrado o erro de seus pontos de vista. Seu próprio envolvimento em tal prova fornece a evidência de um ponto de vista novo e mais amplo. A predisposição das partes envolvidas em se abster de maiores discussões pela trivialidade que de fato implicam e em apelar diretamente aos fotos do absoluto histórico indica claramente a pequena importância das opiniões e a enorme importância das divergências que lhes são concernentes. Pois a discussão é de fato trivial, mas não o são as vontades isoladas por cujo intermédio tornam-se manifestas. A vaidade do homem pode muito bem se acercar do infinito em capacidade mas seu conhecimento permanece imperfeito e por mais que venha a valorizar seus juízos no fim de tudo ele deve submetê-los a uma instância superior. Aqui não cabe qualquer recurso excepcional. Aqui considerações de equidade e retidão e direito moral são tornadas nulas e inafiançáveis e aqui os pontos de vista dos litigantes são desprezados. Decisões de vida e morte, do que deve existir e do que não deve, transcendem toda a questão da justiça. A escolhas dessa magnitude toda escolha menor se subordina, moral, espiritual e natural.”

Cormac McCarthy. Meridiano de sangue.

  • 5 months ago
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“Pabst concordava com Milk Blow que a noção de DJ de punhetas próprias era uma redundância, ou uma verdade analítica, ou uma tautologia (ultimamente preferia a enumeração à síntese). Os temas iam de Personal Jesus (o cover de Marilyn Manson ou o Ursprung de Johnny Cash), excertos de Appetite for destruction do Guns n’Roses, Alien sex fiend, Butthole surfers, Rage against the machine, Pixies, Ramstein, Sepultura. Segundo sua teoria, os anos 80 foram o verdadeiro cume do apogeu sexual: a vaidade pela primeira vez, não tinha limites. No entanto, na hora de escolher fundos musicais para a trepada de hoje, não podia descartar os ritmos furiosos e ameaçantes, de acordo com o desdobramento do materialismo histórico da vaidade: a maldade dá vontade de trepar.

A outra razão era a sua lealdade a Kamtchowsky. Se pusesse temas mais brincalhões (Don’t talk just kiss, Madonna circa 84, Britney) ou convites mais específico à sedução, majoritariamente negros (Doctor’s orders, Love to love you, baby love), estaria obrigando-a a um desdobramento de encantos pelo qual sem importar o grau de condescendência, nenhum avô/ó se animaria a testemunhar. Acreditava que Kamtchowsky, mugindo gritinhos de ardor de quatro, apreciava essa deferência em alguma parte de seus órgãos. As canções que estatisticamente fazem as adolescentes abrirem as pernas sobre os alto-falantes constituíam um desafio cruel ao universo contrafeito e sem graça de Kamtchowsky. A atividade motriz dessas garotas podia convergir em séries de instruções, como linguagens privadas no seio de uma comunidade; mas para Kamtchowsky era como se encontrar no meio de um tabuleiro de xadrez e perceber que não se é nenhuma peça. Tratava-se de uma linguagem que Kamtchowsky podia entender e, no entanto, permanecer incapaz de reproduzir mensagens”.

Pola Oloixarac. As teorias selvagens.

  • 10 months ago
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“essas coisas do sexo eram muito importantes, por isso parecia muito difícil conciliar uma fidelidade amorosa com a vontade tão desenfreada de entrar numa rapariga. e quantas técnicas poderiam ocorrer-me para que uma moça apreciasse o meu desejo, mijando nas ruas e tossindo ato para que não se desapercebessem da minha presença. e logo tão depressa se ruborizavam e deixavam apreender de suspiros, envergonhadas de vontade, muito atazanadas pelas carnes. e era tão mais simples quando pudessem espar-se para fora dos caminhos que percorriam, corajosas e impensáveis a fugir dos trajetos, por um momento de volúpia em que se teriam conspurcadas na honra. mas nada para que eu contribuísse, calado de orgulhos, só aproveitando o que era dado sem vãs glórias, sem notícia que não a do segredo mais absoluto da memória. era como fazia, usando-as para belo prazer de ambos e emudecendo o orgulho que pudesse ter em contar o sucedido. depois do ato, honrados de novo os dois, éramos desconhecidos daquilo e ninguém que nos perguntasse, se pudesse desconfiar, teria resposta afirmativa, que convictamente lhe diríamos que não. que nunca o fizemos”.

valter hugo mãe. o remorso de baltazar serapião.

  • 10 months ago
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“Esse negócio de memória é gozado, se me permite mais uma digressãozinha. A memória não é uma locadora de vídeos à espera das demandas do freguês: “Por favor, mocinha, me veja aí o filme da minha primeira trepada em 1980, com aquela baixinha meiga, nós dois aos 16 aninhos com o tesão na ponta da língua, do pau e do grelo, no apartamento de veraneio dos pais dela em Santos. O fundo sonoro era zoeira da galerinha que tinha viajado com a gente vendo um Corinthians vs. Santos na tevê da sala. Posso estar confundindo, mas acho que ranquei o cabaço dela bem quando o Corinthians marcou um gol e a galera explodiu na vibração, o que, se não for verdade, pelo menos dá uma boa cena.”

Ou: “Me veja, por favor, aquela trombada de fusca que eu protagonizei contra um buzão no cruzamento da Lisboa com a Teodoro, às sete da manhã, em 1991, voltando duma balada cuma galerinha, todo mundo pra lá de chapado. Foi foda. Sangue e estilhaço de vidro pra todo lado.” (Até hoje não sei de onde surgiu aquele ônibus, caralho. Eu tava olhando pro lado certo da Teodoro ao tentar cruzá-la. Achei que tava, pelo menos. Quebrei o braço em três lugares e levei 18 pontos na cabeça. A menina do meu lado quebrou o nariz, o maxilar e o fêmur. Um outro carinho teve uma perfuração em algum órgão mais ou menos vital. Esse quase morreu.)

Não, a memória não é nada disso. Acho que ela parece mais um oceano agitado por ondas aleatórias de angústias e dor a encobrir imagens perturbadoras em fugas através de fronteiras imprecisas nos substratos mais profundos da mente humana, como no “Império dos sonhos”, do Lynch. É isso: a memória é um pesadelo fílmico do David Lynch. Não é à toa que ela vem com um dispositivo autolimpante - o esquecimento.

Eta papo furado do caraio.”

Reinaldo Moraes. Pornopopéia.

  • 11 months ago
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“Em retribuição, ele trouxe do sítio para Oxford uma seleção dos discos dos quais queria que ela aprendesse a gostar. Ela sentava imóvel e escutava Chuck Berry, com paciência, os olhos fechados e muita concentração. Ele pensava que ela pudesse não gostar de “Roll over Beethoven”, mas ela achou a maior graça. Ele lhe apresentou versões “canhestras e honestas” de Chuck Berry pelos Beatles e pelos Rolling Stones. Ela tentou encontrar alguma coisa apreciativa para dizer sobre cada uma delas, mas usou palavras como “animada” ou “jovial” ou “sincera”, e ele sabia que ela estava sendo gentil. Quando ele deu a entender que rock and roll não era realmente “a dela”, e que não fazia sentido continuar tentando, ela admitiu que o que não suportava era a bateria. Se a melodia era tão elementar, em geral uma cadência simples de quatro tempos, porque tinha de haver essa batida implacável, todo esse estrondo e estardalhaço, para marcar o ritmo? Qual era o objetivo, se já havia uma guitarra rítmica e, muitas vezes, um piano?”

Ian McEwan. Na praia.

  • 1 year ago
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“Contar deforma, contar os fatos deforma os fatos e os tergiversa e quase os nega, tudo o que se conta passa a ser irreal e aproximado embora seja verídico, a verdade não depende de que as coisas tenham sido ou acontecido, mas de que permaneçam ocultas e sejam desconhecidas e não contadas, enquanto se relatam ou se manifestam ou se mostram, mesmo que seja no que parece mais real, na televisão ou no jornal, no que se chama realidade ou vida ou vida real até, passam a fazer parte da analogia e do símbolo, já não são fatos, mas se transformam em reconhecimento. A verdade nunca resplandece, como diz a fórmula, porque a única verdade é a que não se conhece nem se transmite, a que não se traduz em palavras nem em imagens, a encoberta e não averiguada, e talvez por isso se conte tanto ou se conte tudo, para que nunca tenha ocorrido nada, uma vez que se conta.”

Javier Marías. Coração tão branco.

  • 1 year ago
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”- As histórias de amor podem não ter futuro, mas têm sempre passado. É por isso que as pessoas se agarram a tudo o que as remete de volta ao que perderam. Os livros que elas leem sempre dizem respeito ao passado. Romances históricos, memórias, biografias, tudo tem que ser escrito em retrospectiva, senão não faz sentido. Ninguém quer ler o que está por vir, à beira do abismo. As pessoas precisam se agarrar ao que já conhecem. Os modernismos não podiam mesmo durar. Nem as revoluções. Ninguém vai construir uma casa à beira do abismo.”

Bernardo Carvalho. O filho da mãe.

  • 1 year ago
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“Para você, eu sempre fui um idiota querido. O companheiro lamentável. Quantas vezes precisei do teu socorro? Lembra de quando caí da mimoseira gigante, no jardim da tua avó? Você me escorou até o posto de saúde, teu ombro e meu sovaco encaixados, um abraço perfeito. Quando me acidentei na tua bicicleta, você nem se incomodou com os pedais tortos, o guidão destruído, o dinheiro gasto no conserto. Nunca me cobrou. Quando vomitei no nosso primeiro baile de carnaval, você passou a noite comigo, do lado de fora do clube. Lá dentro, todas aquelas gurias te esperavam, debutantes quase nuas, vestindo apenas miçangas, biquínis, serpentinas derretidas. Lembra? Vimos o sol nascer na praia, juntos. Eu não podia caminhar, eu não conseguia endireitar meu corpo, meu abdome rígido, inchado de gases, o fígado intusmecido. Pois eu e você deixamos o carnaval passar, a festa morrer, a minha cólica e o mar rugindo entre a gente. Eu te disse que estava enjoado, que precisava de ar puro. E você não acendeu um cigarro. Nosso maço amanheceu lacrado no bolso da tua bermuda”.

Luís Henrique Pellanda. Duas cartas. O macaco ornamental.

  • 1 year ago
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“Sinto-me um pouco travado. Talvez devesse imitar Baudelaire (ou seria Rimbaud ou Musset?) que escrevia bebendo absinto, com uma prostitua nua no quarto para aquecer a inspiração. Todos esses personagens - digo, meus antepasados -, eles bebem sem parar. É natural que me sinta contagiado pela bebedeira deles.

Ocorre-me, por um momento, que, ao focar tanto no hábito deles de se alcoolizar durante a narrativa, eu tenha emprestado a eles um desejo meu. Pois, ao contar uma história, se faz um recorte do que mostrar ou esconder. E nenhum recorte é imparcial. Preciso continuar escrevendo e rentar ser mais consciente de cada palavra. Não há inocência na escrita, e Deus bem sabe que eu estou afogado em hábitos nada virtuosos”.

Antônio Xerxenesky. Areia nos dentes.

  • 1 year ago
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“Fotos fazem sentido numa propaganda, para anunciar e vender um produto qualquer. Mas não para guardar a lembrança de alguém - ou ocupar o espaço da sua ausência. Uma fotografia é uma manipulação anormal: dentro dela o tempo não existe. Essa máquina tem a forma de uma lâmina fina e retangular que viajar na velocidade da luz. Mas as lembranças devem sofrer a ação do tempo.

(…)

Com as digitais, pouca gente ainda usa filmes. Aprisionam obsessivamente suas imagens do passado em código binário, dentro de memórias flash e computadores - hoje em dia só vendemos filmes para poucos fotógrafos profissionais e amadores dedicados”.

João Paulo Cuenca. O único final feliz para uma história de amor é um acidente.

  • 1 year ago
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